A Girl MOVE promove a liderança feminina e o desenvolvimento social em Moçambique através da educação e da mentoria de jovens mulheres. Há oito anos que o Santander e a Fundação Santander Portugal apoiam esta missão, alinhada com o seu compromisso com a educação e a inclusão. Ao longo desta parceria, já acolheram 10 Girl Movers, contribuindo para o seu desenvolvimento pessoal e profissional e para o impacto que geram nas suas comunidades.
Conheça a perspetiva de Rofina Saveca, a Girl Mover recebida este ano pela Fundação, sobre o papel transformador da Girl MOVE Academy no combate ao abandono escolar em Moçambique.
Preparar jovens mulheres para liderar não significa apenas desenvolver competências de liderança. Significa também prepará-las para compreender os sistemas em que estão inseridas, questionar as estruturas que produzem determinados problemas e reconhecer os diferentes atores que precisam de estar envolvidos na construção de mudanças sustentáveis.
Esta é uma das principais reflexões que a minha participação na Girl MOVE Academy me tem suscitado. Na minha perspetiva, programas de desenvolvimento de liderança feminina são importantes não apenas porque permitem às jovens desenvolver competências de liderança e inovação, mas sobretudo porque podem criar espaços para desenvolver o pensamento crítico, a visão sistémica e a capacidade de transformar conhecimento em ação. No meu caso, esta aprendizagem encontra na educação um dos seus principais caminhos, por acreditar que ela pode contribuir para reparar o elevador social.
Antes desta experiência, quando pensava num problema social, tendia a concentrar-me naquilo que estava diante de mim e a procurar uma solução imediata. Hoje, tenho aprendido a fazer perguntas diferentes: o que está por detrás deste problema? Quem é afetado? Que fatores contribuem para a sua existência? Que relações existem entre esses fatores? E, sobretudo, que atores precisam de estar envolvidos para que uma mudança seja possível?
Esta mudança de perspetiva tornou-se particularmente evidente quando tive a oportunidade de explorar o sistema educativo em Nampula, no norte de Moçambique. Ao procurar compreender o abandono escolar, percebi que não é possível explicá-lo a partir de uma única causa. As distâncias percorridas pelos alunos, as uniões prematuras, a falta de recursos financeiros, a gravidez precoce e a valorização da agricultura e da pastorícia podem cruzar-se de diferentes formas e influenciar a permanência ou a saída de um aluno da escola.
Por isso, uma aluna que abandona a escola não deve ser vista apenas como uma estatística. Por detrás desse número existe uma pessoa, uma família, uma comunidade e um conjunto de condições que ajudam a explicar aquela decisão. Isto não significa desvalorizar os dados. Pelo contrário, as estatísticas são fundamentais para percebermos a dimensão de um problema. No entanto, os números dizem-nos quantos alunos abandonam a escola, enquanto as experiências das comunidades podem ajudar-nos a compreender como e por que razão esse abandono acontece em determinados contextos.
Esta distinção mudou também a minha forma de pensar sobre as soluções. Se um problema é influenciado por diferentes fatores, dificilmente uma solução isolada conseguirá responder a toda a sua complexidade. É necessário ouvir quem vive o problema, reconhecer o conhecimento existente nas comunidades e envolver os diferentes atores que têm capacidade de influenciar as condições que o produzem.
É por isso que acredito cada vez mais que não devemos apenas criar soluções para as comunidades, mas também com as comunidades. As comunidades não são apenas destinatárias de soluções concebidas externamente. Possuem experiências, conhecimentos e estratégias que podem contribuir para tornar uma intervenção mais adequada à realidade local. Ao mesmo tempo, envolver as comunidades não significa retirar às instituições a sua responsabilidade. Pelo contrário, significa reconhecer que problemas complexos exigem a colaboração entre cidadãos, famílias, escolas, organizações da sociedade civil, setor privado e instituições públicas.
A convivência com outras Girl Movers também ampliou esta compreensão. Somos mulheres com diferentes histórias, causas e formas de interpretar a realidade. Ao partilharmos experiências, percebemos que os problemas sociais não existem de forma isolada. Educação, saúde, pobreza, género e oportunidades de desenvolvimento relacionam-se e influenciam-se de diferentes maneiras. Esta diversidade de perspetivas ensinou-me que a colaboração não é apenas uma forma de juntar pessoas; é também uma forma de ampliar a nossa capacidade de compreender problemas que, individualmente, poderíamos interpretar de forma limitada.
É possível, contudo, questionar até que ponto um programa de liderança pode realmente contribuir para transformar sistemas. Afinal, sistemas complexos não mudam apenas porque algumas jovens desenvolvem novas competências. A Girl MOVE Academy, por si só, não resolve o abandono escolar, não substitui as instituições públicas e não consegue, sozinha, alterar as condições económicas ou sociais das comunidades.
Mas acredito que o seu valor está precisamente naquilo que pode ajudar a construir nas pessoas que dela participam. Uma jovem que aprende a questionar, investigar, ouvir diferentes perspetivas, analisar relações entre problemas, trabalhar em colaboração e reconhecer os limites das suas próprias soluções está mais preparada para participar em processos de transformação.
Transformar sistemas, portanto, não significa que uma jovem tenha de resolver um problema sozinha. Significa que ela pode tornar-se uma pessoa capaz de identificar problemas com maior profundidade, mobilizar outras pessoas, construir soluções de forma colaborativa e dialogar com os atores que têm influência sobre esse sistema. Pode contribuir para aproximar diferentes perspetivas, testar novas abordagens e levar as experiências das comunidades para espaços onde decisões são tomadas.
É neste ponto que vejo uma ligação entre liderança e transformação sistémica. Liderar não deve significar apenas estar à frente ou mobilizar pessoas para uma determinada causa. Deve também significar compreender o contexto em que essa causa existe, reconhecer quem tem poder para influenciá-lo e construir alianças capazes de produzir mudanças que ultrapassem uma intervenção pontual.
Para mim, esta aprendizagem é particularmente importante quando penso na educação. Se acredito que ela pode reparar o elevador social, também preciso de compreender por que razão esse elevador não funciona da mesma forma para todos. Não basta perguntar quantos alunos estão fora da escola. Precisamos de perguntar que barreiras encontram, quem pode ajudar a removê-las e que mudanças precisam de acontecer para que permanecer na escola seja uma possibilidade real.
É por isso que a Girl MOVE Academy representa, para mim, mais do que uma experiência de desenvolvimento pessoal. É um espaço que me tem ensinado que querer fazer a diferença não é suficiente. É preciso investigar antes de agir, ouvir antes de propor, reconhecer os conhecimentos existentes nas comunidades e compreender que mudanças duradouras raramente são construídas por uma única pessoa ou organização.
Talvez seja esta uma das maiores aprendizagens para uma jovem que deseja transformar a sua comunidade: não começar apenas pela pergunta “O que posso fazer?”, mas também perguntar “O que ainda não compreendo?”, “Quem vive este problema?” e “Quem precisa de estar comigo para o transformar?”.
Porque formar mulheres para liderar não deve significar apenas prepará-las para ocupar espaços de liderança. Deve significar prepará-las para olhar para os sistemas, compreender as suas relações, questionar aquilo que precisa de mudar e trabalhar com outras pessoas para construir essa mudança.



